Estudo arqueológico do sistema de captação de água das Sete Fontes (séculos IV-XX)

Luís Fontes

Doutor em Arqueologia, Área de Conhecimento de Arqueologia da Paisagem e do Povoamento, pela Universidade do Minho

A síntese que aqui se apresenta tem por base os resultados obtidos com os trabalhos arqueológicos de levantamento, sondagens e acompanhamento realizados na área do Sistema de Captação de Água das Sete Fontes, em S. Victor, no âmbito do Estudo Prévio do Plano de Pormenor das Sete Fontes, promovido pelo Município de Braga para dar satisfação às condicionantes estabelecidas pela Direção Regional de Cultura do Norte/DRCN.  

Realizados pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho entre 2012 e 2015, os trabalhos arqueológicos permitiram acrescentar significativamente o conhecimento das características construtivas e arquitectónicas das estruturas hidráulicas do sistema de captação de água das Sete Fontes, que conserva elementos de época romana, medieval, moderna e contemporânea, constituindo um testemunho singular e com carácter de exemplo das soluções de engenharia hidráulica e suas expressões construtivas e arquitectónicas, na longa duração, podendo afirmar-se que constituem uma raridade em Portugal. 

(…) Na forma actual conservada, o conjunto do sistema de captação de água é composto por galerias subterrâneas, nascentes ou mães de água e condutas, com uma extensão aproximada de 3.600 metros, sendo 2.250 metros em galerias subterrâneas e o restante em condutas de manilhas graníticas ou em tubagem de ferro. As estruturas mais visíveis deste sistema são as pequenas edificações exteriores de planta circular e cobertura abobadada, que abrigam caixas de ligação de galerias e condutas. 

A análise da estratigrafia construtiva permitiu estabelecer a sequência evolutiva do sistema de captação de água das Sete Fontes, confirmando-se a sua origem em época romana, o seu reforço em época medieval e a sua plena consolidação no decurso do século XVIII. O troço mais extenso da conduta principal corresponde à parte mais antiga do sistema, mas os dados das escavações arqueológicas e da análise documental apenas permitem propor uma cronologia relativa balizada entre os séculos IV e XIV. 

O estudo do sistema de captação das Sete Fontes beneficiou dos dados proporcionados pelos trabalhos arqueológicos de sondagens, de levantamento e de análise estratigráfico-construtiva, bem como da existência de inúmeros documentos que se lhe referem, possibilitando estabelecer algumas conclusões:

– O conjunto das estruturas que compõe o sistema de captação de água das Sete Fontes realiza na plenitude as soluções da engenharia hidráulica clássica para captação e condução de água proveniente de aquíferos subterrâneos. Do ponto de vista das técnicas de construção utilizadas, este conjunto revela o total domínio dos saberes-fazer, patente na solidez construtiva das galerias e na superior qualidade arquitectónica das principais caixas de recepção, decantação e ligação, como evidenciam as cúpulas abobadadas ou as chaminés de ventilação cilíndricas e prismática.

– A sua extensão e traçado revelam um profundo conhecimento das características hidrogeológicas do local, pois foram implantadas de modo a capturar as emergências de água existentes nesta zona de contacto do granito com o xisto. 

– Até meados do século XVIII, o sistema de captação foi crescendo explorando exclusivamente os mananciais de água da vertente norte. A partir de meados do século XVIII a captação passou a contemplar também a vertente meridional. 

– A análise da estratigrafia construtiva permitiu estabelecer a sequência evolutiva do sistema de captação de água das Sete Fontes, confirmando-se a sua origem em época romana, o seu reforço em época medieval e a sua plena consolidação no decurso do século XVIII, relevando aqui o projecto de renovação e acrescentamento promovido por D. Rodrigo de Moura Teles e pelo Senado da Câmara de Braga entre 1704 e 1741.